Para
sonhar o que poucos ousaram sonhar.
Para
realizar aquilo que já te disseram que não podia ser feito.
Para
alcançar a estrela inalcançável.
Essa
será a tua tarefa: alcançar essa estrela.
Sem
quereres saber quão longe ela se encontra;
nem
de quanta esperança necessitarás;
nem
se poderás ser maior do que o teu medo.
Apenas
nisso vale a pena gastares a tua vida.
Para
carregar sobre os ombros o peso do mundo.
Para
lutar pelo bem sem descanso e sem cansaço.
Para
enxugar todas as lágrimas ou para lhes dar um sentido luminoso.
Levarás
a tua juventude a lugares onde se pode morrer, porque precisam lá de ti.
Pisarás
terrenos que muitos valentes não se atreveriam a pisar.
Partirás
para longe, talvez sem saíres do mesmo lugar.
Para
amar com pureza e castidade.
Para
devolver à palavra "amigo" o seu sabor a vento e rocha.
Para
ter muitos filhos nascidos também do teu corpo e - ou - muitos mais nascidos
apenas do teu coração.
Para
dar de novo todo o valor às palavras dos homens.
Para
descobrir os caminhos que há no ventre da noite.
Para
vencer o medo.
Não
medirás as tuas forças.
O
anjo do bem te levará consigo, sem permitir que os teus pés se magoem nas pedras.
Ele,
que vigia o sono das crianças e coloca nos seus olhos uma luz pura que apetece
beijar, é também guerreiro forte.
Verás
a tua mão tocar rochedos grandes e fazer brotar deles água verdadeira.
Olharás
para tudo com espanto.
Saberás
que, sendo tu nada, és capaz de uma flor no esterco e de um archote no escuro.
Para
sofrer aquilo que não sabias ser capaz de sofrer.
Para
viver daquilo que mata.
Para
saber as cores que existem por dentro do silêncio.
Continuarás
quando os teus braços estiverem fatigados.
Olharás
para as tuas cicatrizes sem tristeza.
Tu
saberás que um homem pode seguir em frente apesar de tudo o que dói, e que só
assim é homem.
Para
gritar, mesmo calado, os verdadeiros nomes de tudo.
Para
tratar como lixo as bugigangas que outros acariciam.
Para
mostrar que se pode viver de luar quando se vai por um caminho que é principalmente
de cor e espuma.
Levantarás
do chão cada pedra das ruínas em que transformaram tudo isto.
Uma
força que não é tua nos teus braços.
Beijá-las-ás
e voltarás a pô-las nos seus lugares.
Para
ir mais além.
Para
passar cantando perto daqueles que viveram poucos anos e já envelheceram.
Para
puxar por um braço, com carinho, esses que passam a tarde sentados em frente
de uma cerveja.
Dirás
até ao último momento: "ainda não é suficiente".
Disposto
a ir às portas do abismo salvar uma flor que resvalava.
Disposto
a dar tudo pelo que parece ser nada.
Disposto
a ter contigo dores que são semente de alegrias talvez longe.
Para
tocar o intocável.
Para
haver em ti um sorriso que a morte não te possa arrancar.
Para
encontrar a luz de cuja existência sempre suspeitaste.
Para
alcançar a estrela inalcançável.
Paulo
Geraldo