A experiência é
uma coisa muito interessante. É servindo-nos dela que aprendemos grande parte
daquilo que sabemos; por ela orientamos, muitas vezes, os nossos passos; com
ela evitamos a repetição de dissabores e procuramos aquilo que já sabemos ser
bom. A experiência poderia servir para que a nossa vida fosse muito mais previsível
e controlável, mais cómoda e segura, livre de problemas.
Uma maçada, no fundo...
Felizmente, a natureza
possui aspectos desconcertantes que têm o condão de permitir que, apesar de
existir a experiência, a nossa vida seja em cada um dos seus momentos uma aventura.
Um deles é que a
experiência que adquirimos numa fase da nossa vida não nos serve de nada quando
chegamos à fase seguinte. Assim, terminada a infância, aquilo que nela aprendemos
de pouco nos vem a servir na adolescência, pois ali tudo se torna novo e estranho.
Na maturidade tudo
se transforma mais uma vez. São outras as cores daquilo que nos rodeia, os desafios
são diferentes; temos novas capacidades, que estreamos como quem utiliza um
brinquedo novo.
Depois, caem as
folhas, arrefece o sangue e tudo é de novo estranho. Mas de uma estranheza diferente,
desconhecida.
E envelhecer é outra
aventura. Quando lá chegamos não fazemos ideia do que nos espera.
E a morte... Como
ter experiência da morte? Se nas fases anteriores ainda nos podemos socorrer
da experiência de outras pessoas, neste caso ninguém nos pode ajudar. A morte
é a grande e definitiva aventura.
Apesar da experiência
que vamos adquirindo, chegamos, a cada uma das nossas épocas, inexperientes
e inseguros como meninos.
A falta de memória
também contribui para tornar esta nossa vida mais divertida. Como os pais já
não se lembram muito bem de como eram quando eram crianças, educar os filhos
transforma-se numa emocionante aventura, cheia de novidades diárias.
A vida, na sua magnífica
diversidade, vai-nos oferecendo constantemente novas situações, para as quais
nunca estamos verdadeiramente preparados. Algumas são duras: um fracasso grande,
uma doença que veio para ficar, a morte de alguém que nos faz falta...
Estas limitações
da experiência forçam-nos a crescer continuamente; mantêm-nos tensos, esforçados.
Permitem-nos ter constantemente objectivos diferentes. Dão colorido à nossa
vida. É assim que nos podemos manter de algum modo jovens em qualquer idade.
Quem programou este jogo da vida fê-lo de forma a que ele tivesse sempre interesse.
Subimos de nível, saltamos do material para o espiritual, varia o grau de dificuldade,
mudam os adversários e o ambiente - como nos jogos electrónicos...
Não somos poupados
a sofrimentos, mas é-nos dada a possibilidade de reagir e continuar a avançar.
Se temos saudade do que ficou atrás, também nos é permitido sonhar com o que
está adiante. Se conservamos o sabor de derrotas que tivemos, também planeamos
a vitória que se segue.
No jogo da vida,
as derrotas deixam marcas, as feridas fazem mesmo doer, muitas vezes não recuperamos
aquilo que perdemos. Estamos ancorados à realidade e, por isso, para nos divertirmos,
para nos sentirmos como aventureiros no meio de tudo isto, temos necessidade
de coragem. E de não calarmos aquilo que dentro de nós nos chama a um sonho,
clama por aventura, pede para fazermos com a vida qualquer coisa que seja grande.
Poderíamos dar ouvidos
ao medíocre que quer instalar-se em nós. E evitar, por medo e preguiça, as dificuldades,
as complicações, o sonho. Mas "evitar o perigo não é, a longo prazo, tão
seguro quanto expor-se ao perigo. A vida é uma aventura ousada ou, então, não
é nada". Quem disse isto foi Helen Keller, a menina cega, surda e muda
que veio a ser pedagoga e escritora.
A mediocridade tira
toda a graça e todo o sal ao tempo que passamos aqui.
(Paulo
Geraldo)