Textos de Sophia de Mello Breyner

Gaspar

— Não receberás a protecção das nossas leis, e os nossos juízes julgarão em sentença contra ti, e a tua razão será como um punhado de cinza. Como a gente da ralé, não terás nem protecção nem defesa enquanto não te curvares perante o altar do Bezerro para adorar os ídolos que nós adoramos.
E Gaspar respondeu:
— O meu deus é em mim como uma fonte que não pára de correr e é em meu redor como o muro de uma fortaleza.

Chamo-Te

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio E suportar é o tempo mais comprido. Peço-Te que venhas e me dês a liberdade, Que um só de Teus olhares me purifique e acabe. Há muitas coisas que não quero ver. Peço-Te que sejas o presente. Peço-Te que inundes tudo. E que o Teu reino antes do [...]

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo Para enfrentarmos juntos o terror da morte Para ver a verdade, para perder o medo Ao lado dos teus passos caminhei Por ti deixei meu reino meu segredo Minha rápida noite meu silêncio Minha pérola redonda e seu oriente Meu espelho minha vida minha imagem E abandonei os [...]

Carta aos amigos mortos

Eis que morrestes – agora já não bate O vosso coração cujo bater Dava ritmo e esperança ao meu viver Agora estais perdidos para mim – O olhar não atravessa esta distância – Nem irei procurar-vos pois não sou Orpheu tendo escolhido para mim Estar presente aqui onde estou viva. Eu vos desejo a paz [...]